O histórico da Associação SiTOC passa necessariamente, pela experiência pessoal de seus membros fundadores, como em todos os outros grupos e associações de apoio existentes pelo Brasil afora. Então...

“Nosso filho, antes de 2 anos de idade, já falava “compulsivamente” e tinha um vocabulário bem acima da média, utilizando corretamente palavras abstratas como: “aliás” e “supondo”, em suas conversas, que eram “monólogos” incompreensíveis para com as outras crianças.
Já possuía um ouvido apuradíssimo para músicas e sons, de um modo geral. Gostava que nós lhe lêssemos estórias de Monteiro Lobato antes de dormir, porém as páginas do livro tinham de ser viradas de “um determinado jeito” para que ele não ficasse transtornado com o som advindo de uma folha raspando na outra, nesta ação.
Quando ele estava com mais de 2 anos, notamos que seu sono era muito agitado e ao começar a freqüentar a escolinha, vez por outra aprendia uma palavrinha “obscena”, a qual não parava de repetir em qualquer ambiente social, à qualquer hora. Às vezes, compunha musiquinhas com tais palavras obscenas, colocando-as nas letras das mesmas.
Passamos a levá-lo pessoalmente à escolinha, tirando-o do transporte escolar, pois naquela perua Kombi de então, encontrava-se um verdadeiro antro anti-pedagógico, no qual entre outras coisas ruins, ele aprendia novos palavrões.
Entre 2 e 4 anos, ficou também caracterizado seu comportamento explosivo, quando ficou conhecido como uma criança “difícil” e de pavio curto, além de “boca suja”. Nesta época, já deprimido, ele havia conseguido verbalizar para a mãe, sua incapacidade em conter a vontade de falar coisas obscenas e palavrões.
Sabíamos que algo estava muito errado, mas não sabíamos o quê era que fazia uma criança tão inteligente, ter um comportamento tão arredio e socialmente inadequado.
Em seguida, aos 5 anos de idade, colocamo-lo para praticar um esporte e escolhemos uma escolinha de futebol de salão, perto de casa. Foi sua primeira vez, e o professor inabilidoso, o escalou para jogar de goleiro! É claro que, ele tomou muitos gols e foi crucificado pelo time. Ficou muito ansioso por isso, e começou a fazer um estranho movimento de ombros que parecia significar: “que se danem, não estou nem aí!”, além de repetir “deixa. . .”, enquanto era cobrado e xingado pelos coleguinhas...
Esses passaram a ser seus primeiros tiques motores! Dias depois, começou a encolher a barriga, falar “ops” e apresentar um pigarrinho e tosse inexplicáveis. Os tiques foram ficando mais complexos, com piscadelas estranhas e culminando com pulinhos esquisitos, enquanto conversava parado e em seguida fazia “giros imitando helicóptero”, principalmente, quando estava muito alegre.
Bem, aí ele começou a sofrer com a crueldade infantil, dos poucos coleguinhas que tinha. É bom lembrar também, que as escolas geralmente “não estão preparadas”, para estes casos! Aliás, para outros também (fica aqui minha crítica)!
Em nós, pais, bateram o desespero e a angústia diante da impotência, por não estarmos conseguindo ajudar nossa “cria”.
Nosso filho estava tendo atendimento psicológico e pediátrico, mas nada estava sendo detectado, o que nos deixava mais perplexos! Pesquisávamos na Internet e eis que, num golpe de sorte, achamos numa página de um site ITALIANO a descrição dos sintomas “de uma tal” de Síndrome de Tourette.
PRONTO! Tudo batia! Era isso! Tinha de ser!
Levamos nosso filho, no dia seguinte, à um Neurologista (afinal, Gilles de la Tourette, também o foi!) que era nosso amigo de há alguns anos, para examiná-lo e o que aconteceu? ...
NADA! Nosso filho estava tão à vontade, que não apresentou um tique sequer e por isso não pôde ser diagnosticado naquele dia.
Fiquei inconformado com isso, mas aprendi também que quando meu filho está relaxado, ou com febre baixa (37 a 38 graus) ele tem um comportamento “normal”.
No mesmo dia, o levei para jogar futebol, só que desta vez comigo! Minha esposa nos filmou com uma filmadora portátil, registrando todos os  seus tiques. Apresentamos esta fita ao Neurologista, que imediatamente nos deu razão...
DIAGNÓSTICO: Síndrome de Tourette!
A esta altura, nosso filho estava por fazer 6 anos e nós nos especializamos, lendo muito sobre o tema! Acabamos descobrindo a ASTOC, em São Paulo.
Sentimos a necessidade de fundarmos uma associação na baixada Santista batizada de Associação SiTOC, onde fazemos hoje, um trabalho aos moldes da ASTOC, esclarecendo, informando e orientando pais e portadores sobre as formas de tratamento da ST e TOC.
Nosso filho, com 10 anos de idade (2005) , faz tratamento multidisciplinar com terapeuta Comportamental, médico Psiquiatra e médico Neurologista, além de freqüentar o grupo de apoio da SiTOC, onde eleva sua auto-estima, conhecendo e ajudando outros portadores a não se deixarem estigmatizar. Seus ídolos são: Amadeus MOZART, na música clássica, e o jogador CAFU, da seleção brasileira de futebol. Nosso filho sabe explicar a qualquer um, o porquê de sua admiração por essas pessoas! Alguém desconfia?
Tourétticos são pessoas “cabeçudas” (teimosas), têm um senso de humor ingênuo e nem sempre entendem piadas ou “gracinhas maliciosas”, mas são amigos extremamente leais, sinceros (não têm duas caras) e sabem cobrar o cumprimento de regras pré-estabelecidas, ainda que eles mesmos, não as consigam cumprir. Vale lembrar que no caso deles, quando não as conseguem cumprir, é por problema clínico, e não por “sacanagem”!
Tivemos sorte de contornar por enquanto, a dor de cabeça que tínhamos com a escola anterior e seus “educadores”. Encontramos uma escola, que se dispôs humildemente (artigos em falta no “mercado escolar”: humildade para aprender, tolerância com as diferenças e conseqüentemente, dificuldade para INCLUIR!) a aceitar o contato entre o terapeuta comportamental de nosso filho seus professores. Este contato tem sido superpositivo, pois tem também ajudado essa escola a identificar e entender em seus OUTROS alunos, outras “coisas”, como por exemplo: déficit de atenção, hiperatividade (TDAH), dislexia, transtorno opositor desafiante, TOC, depressão infantil e etc. Sugiro a outros pais, que procurem escolas assim, pois elas existem!

O tratamento da ST ainda custa muito caro, mas vale o esforço! Depois de conhecer o “nome da coisa” contra a qual o portador pode lutar, dá gosto de vê-lo mostrando a pessoa talentosa, CRIATIVA, sensível e inteligente que é.”

Ricardo R Pimentel
membro fundador da Associação SiTOC
Presidente - gestão 2005/2008